Um Apólogo - Machado de Assis

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Um Apólogo - Machado de Assis

Mensagem  gotospaulo em Qui Abr 19, 2012 1:58 pm

Olá, Pessoal venho aqui apresentar um pequeno apólogo, para quem não sabe apólogo é um pequeno texto onde os personagens são objetos, animais, em fim...
Espero que vocês curtam, eu curti muito... Por favor prestem atenção na mensagem do final:





Um Apólogo - Machado

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Muitas vezes, vocês professores, alunos, funcionários são tratados assim, esta é uma mensagem que gostaria de passar a vocês. Um conto especial ao meu amigo MANOEL

Um abraço do seu amigo,
Goto
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Re: Um Apólogo - Machado de Assis

Mensagem  Prof.Brandão em Ter Maio 22, 2012 4:01 pm

Meu Caro amigo Goto,

Que legal o seu texto! Também havia de ser, pois vindo de você já era de se esperar. Mas, voltando ao texto, em linhas gerais há uma grande lição: De fato o mundo é assim, há agulhas abrindo caminhos para que o sucesso de linhas se dê facilmente. Mas o problema não reside de fato nesse ponto. O problema é que em vez de disputarem o posto de mais importantes, agulhas e linhas precisam recohecerem umas nas outras a importância de ambas a interdepêndência das mesmas, as linhas que vão aos bailes precisam reconhecerem e admitirem que ali estão graças as agulhas e as agulhas precisam precisam se satisfazerem por abrirem caminhos para linhas e garantir-lhes o sucesso nos salões, pois não há ofício mais ou menos dígno quando feitos com igual capricho.
Um grande abraço, do seu ex-professor e eterno amigo,
Manoel Brandão
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Re: Um Apólogo - Machado de Assis

Mensagem  gotospaulo em Dom Maio 27, 2012 5:21 pm

Mano muito obrigado por você ter respondido ao Tópico, fico muito feliz ao ver que vc postou, Obrigado mesmo, você é demais!
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Re: Um Apólogo - Machado de Assis

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